22 de junho de 2007

Outono

Foi no outono que encontrei a paz. Eu ainda não havia esquecido tudo o que se passara. Pude, então, com o outono enchugar as últimas lágrimas que me restaram, varrer as últimas folhas que despencavam, trocar as cascas que me faltavam.
Acordava cedo e logo saíamos ao quintal, eu e a xícara velha de porcelana, sempre guiados pela fumaça que saia do café, cada dia menos amargo.
Quando o vento brando batia, as folhas no chão quase que excitavam-se; assim como meu coraçãozinho, quando chegavam as lembranças, nem sempre brandas. Sim, quando o vento batia, os galhos rangiam... e ele, meu coração, chorava.
E as cores... tons de mostarda; amarelos pálidos, tímidos; cores de saudade, de vento que vai e não volta mais; cores de se conformar de se reanimar. Minha cor era pálida, mas sempre esperançosa por avermelhar-se no final de tarde... por que o outono é assim, ele venta, ele abranda, ele amarela, ele range e canta e chora, mas no final da tarde ele sempre avermelha-se... como uma esperança para qualquer coração.
Enquando eu tomava o café, cada dia mais doce, o clima fazia-se. O dia decorava-se de cores e de aromas... Ah, os aromas! O Outono tem cheiro de folha seca e terra úmida. Tem cheiro de felicidade convalescente, quase boa; de sorriso escondido, quase à mostra; tem cheiro de algo que está por vir. Ah! O outono é assim...
Ele tem som de mistério, mas mistério bom de se desvendar. É a estação que menos fala, mas não é silenciosa, grita baixinho, grita contido, chora em segredo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário